“Meu filho é o menor da turma. Isso é normal?” Essa é uma das dúvidas mais comuns no consultório de endocrinologia pediátrica. Afinal, a altura chama atenção nas fotos da escola, nas consultas e nas comparações com primos e colegas. Na maioria das vezes, a baixa estatura na infância é uma variação do normal. Ainda assim, em alguns casos ela pode ser o primeiro sinal de um problema de saúde. Por isso, vale entender como o médico avalia o crescimento e quando é hora de investigar.
O que é baixa estatura na infância
A altura de uma criança é sempre comparada com a de outras crianças do mesmo sexo e da mesma idade. Para isso, o médico usa as curvas de crescimento.
Uma revisão publicada na American Family Physician define baixa estatura como altura mais de dois desvios-padrão abaixo da média, o que corresponde, aproximadamente, a ficar abaixo do percentil 3. Em outras palavras, de cada 100 crianças da mesma idade e sexo, cerca de 97 são mais altas. O Ministério da Saúde usa o mesmo critério para classificar a baixa estatura para a idade.
No entanto, estar abaixo desse limite não significa, por si só, que a criança tem uma doença. Muitas crianças saudáveis estão no extremo inferior da variação normal.
A altura dos pais importa
A genética tem um peso enorme no crescimento. Por isso, o médico calcula a estatura-alvo, ou seja, a faixa de altura esperada para a criança com base na altura do pai e da mãe.
Uma criança baixa, filha de pais baixos, que cresce em um ritmo normal, em geral apenas segue o padrão da família. Por outro lado, quando a altura da criança fica muito abaixo do esperado para a família, a avaliação precisa ser mais cuidadosa.
O ritmo de crescimento diz muito
Na avaliação da baixa estatura na infância, mais importante do que uma única medida é a forma como a criança cresce ao longo do tempo. Essa informação se chama velocidade de crescimento.
Segundo a revisão citada, entre os 5 anos e o início da puberdade, a criança costuma crescer cerca de 5 a 6 cm por ano. Uma velocidade menor que isso merece atenção. Do mesmo modo, uma linha de crescimento que vai “descendo” na caderneta de saúde, cruzando as curvas para baixo, é um sinal de alerta.
Por isso, guarde as medidas registradas em cada consulta. Entenda melhor como interpretar as curvas de crescimento infantil.
Causas comuns de baixa estatura na infância
Na maioria das vezes, a baixa estatura tem uma explicação benigna. As duas situações mais frequentes são:
- Baixa estatura familiar: a criança é baixa porque os pais também são. Ela cresce em ritmo normal, e a idade óssea é compatível com a idade.
- Atraso constitucional do crescimento e da puberdade: a criança cresce mais devagar e entra na puberdade mais tarde que os colegas. Depois, ela “recupera” e costuma alcançar uma altura adulta adequada. Nesse caso, a idade óssea está atrasada, e muitas vezes um dos pais teve a mesma história.
Há ainda crianças saudáveis com baixa estatura sem causa identificada, situação chamada de baixa estatura idiopática.
Quando a baixa estatura merece investigação
Em alguns casos, o crescimento lento é o primeiro sinal de outra condição. Segundo a revisão, entre as causas a investigar estão:
- doenças crônicas, como anemia, doença celíaca, doença inflamatória intestinal e doença dos rins;
- alterações hormonais, como hipotireoidismo e deficiência do hormônio do crescimento;
- condições genéticas, como a síndrome de Turner nas meninas;
- uso prolongado de alguns medicamentos, como corticoides.
Além disso, alguns sinais pedem uma avaliação com o endocrinologista pediátrico:
- altura muito abaixo da curva ou muito abaixo do esperado para a família;
- crescimento mais lento que o normal, com a linha caindo nas curvas;
- criança que nasceu pequena e não recuperou o crescimento nos primeiros anos;
- ausência de sinais de puberdade aos 13 anos nas meninas ou aos 14 anos nos meninos;
- peso muito baixo ou excesso de peso associado ao crescimento lento;
- outros sintomas, como cansaço, intestino preso ou diarreia frequente.
Como é feita a avaliação da baixa estatura na infância
A avaliação começa com uma conversa detalhada sobre a gestação, o nascimento, a alimentação, as doenças anteriores e a altura dos pais. Em seguida, o médico mede a criança com cuidado e analisa o histórico de crescimento.
Depois disso, o endocrinologista pediátrico pode pedir uma radiografia da mão e do punho, chamada idade óssea. Esse exame mostra se o esqueleto está mais “jovem” ou de acordo com a idade da criança. Também podem ser necessários exames de sangue, conforme a suspeita.
Muitas vezes, o diagnóstico depende do acompanhamento. Por isso, medir a criança novamente após alguns meses é parte importante da avaliação.
Conclusão
A baixa estatura na infância costuma ser uma variação normal, ligada à genética da família ou a um ritmo de crescimento mais lento. Mesmo assim, ela merece atenção quando a criança cresce devagar, fica muito abaixo do esperado ou apresenta outros sintomas. Portanto, acompanhe as medidas do seu filho e, diante de qualquer dúvida, procure o pediatra ou o endocrinologista pediátrico.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta, o diagnóstico, os exames ou o acompanhamento individualizado com um profissional de saúde.
Dra. Paula Martins Balduino Carrijo — Endocrinologista Pediátrica | CRM-DF 19671 | RQE 16680