Quando uma criança é mais baixa que os colegas, muitos pais perguntam sobre o hormônio do crescimento. Afinal, ele não poderia ajudar o filho a crescer mais? A resposta depende da causa. O hormônio do crescimento, também chamado de GH, é um tratamento importante para algumas condições bem definidas. No entanto, ele não serve para toda criança baixa e exige diagnóstico cuidadoso e acompanhamento regular.
O que é o hormônio do crescimento
A hipófise, uma pequena glândula localizada na base do cérebro, produz o GH. Ele estimula o crescimento dos ossos e participa do metabolismo de gorduras, açúcares e proteínas. Grande parte da sua ação acontece por meio de outra substância, o IGF-1, produzido principalmente pelo fígado.
Quando a hipófise produz pouco GH, a criança cresce em um ritmo mais lento que o esperado. Nesse caso, a reposição do hormônio ajuda o crescimento a voltar ao normal.
Quando o hormônio do crescimento é indicado
O tratamento com hormônio do crescimento tem indicações específicas. Uma revisão sobre o uso do GH em pediatria lista as principais situações reconhecidas, entre elas:
- deficiência do hormônio do crescimento, quando a hipófise não produz GH suficiente;
- síndrome de Turner, uma condição genética que afeta meninas;
- síndrome de Prader-Willi;
- crianças que nasceram pequenas para a idade gestacional e não recuperaram o crescimento nos primeiros anos;
- doença renal crônica;
- algumas outras condições genéticas, como a síndrome de Noonan e a deficiência do gene SHOX.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde oferece o tratamento conforme os protocolos do Ministério da Saúde. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da deficiência do hormônio de crescimento define os critérios de diagnóstico e de acompanhamento. Além disso, há um protocolo específico para a síndrome de Turner.
Hormônio do crescimento não é para “crescer mais”
Muitas crianças baixas são, na verdade, saudáveis. Elas podem ter baixa estatura familiar ou um ritmo de crescimento mais lento, que se recupera na puberdade. Nesses casos, o médico em geral não indica o GH.
Especialistas defendem cautela no uso do hormônio do crescimento em crianças saudáveis. Segundo uma publicação de especialistas em endocrinologia pediátrica, mesmo um risco pequeno pode não compensar um benefício incerto quando a criança não tem doença. Por isso, a decisão de tratar depende sempre de uma avaliação completa. Entenda quando a baixa estatura merece investigação.
Como é feito o diagnóstico
O primeiro passo é acompanhar o crescimento ao longo do tempo. Por isso, as medidas registradas nas curvas de crescimento são tão valiosas. Uma criança que cresce devagar, ano após ano, merece investigação.
Em seguida, o endocrinologista pediátrico pode pedir:
- Idade óssea: um raio-X da mão e do punho mostra a maturidade do esqueleto.
- Exames de sangue: incluem o IGF-1 e a avaliação da tireoide, já que o hipotireoidismo na infância também reduz o crescimento.
- Testes de estímulo: a criança recebe uma substância que estimula a hipófise e, depois, colhe várias amostras de sangue para medir o GH.
De acordo com o protocolo do Ministério da Saúde, a deficiência isolada de GH exige dois testes de estímulo diferentes, feitos em datas distintas. Esse cuidado evita diagnósticos errados, porque um único teste pode dar resultado falso.
Como funciona o tratamento
A aplicação do hormônio do crescimento é feita por injeção subcutânea, ou seja, logo abaixo da pele. Segundo o protocolo do Ministério da Saúde, a aplicação costuma ser feita à noite, quase todos os dias da semana. Com orientação, os pais ou a própria criança aprendem a fazer a aplicação em casa.
O médico define e ajusta a dose de acordo com o peso, a resposta ao tratamento e os exames. Portanto, nunca altere a dose nem interrompa o tratamento por conta própria.
O acompanhamento é parte do tratamento
Durante o tratamento, as consultas são frequentes. Segundo o protocolo, o médico mede a criança a cada 3 a 6 meses. Além disso, o médico repete alguns exames periodicamente, como a idade óssea, a glicemia, a função da tireoide e o IGF-1.
Embora o tratamento seja seguro na maioria das vezes, alguns efeitos raros podem acontecer, como dor de cabeça persistente, piora da escoliose ou dor no quadril. Assim, avise o médico sobre qualquer sintoma diferente.
O tratamento continua até que a criança se aproxime da altura final. Para isso, o médico avalia a velocidade de crescimento e a idade óssea.
Conclusão
O hormônio do crescimento pode transformar a vida de crianças com deficiência de GH e com algumas condições específicas. Contudo, ele não serve para toda criança baixa nem para “crescer mais”. Se você tem dúvidas sobre o crescimento do seu filho, procure o endocrinologista pediátrico. Com avaliação cuidadosa, é possível entender a causa e definir o melhor caminho.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta, o diagnóstico, os exames ou o acompanhamento individualizado com um profissional de saúde.
Dra. Paula Martins Balduino Carrijo — Endocrinologista Pediátrica | CRM-DF 19671 | RQE 16680