Muitos pais notam uma mancha escura no pescoço do filho e acham que é sujeira. Esfregam no banho, mas a mancha não sai. Na verdade, esse sinal pode ter nome: acantose nigricans. A acantose nigricans em crianças merece atenção porque, na maioria das vezes, ela está ligada ao excesso de peso e à resistência à insulina. Ou seja, a pele pode dar um aviso precoce sobre a saúde metabólica.
O que é acantose nigricans em crianças
A acantose nigricans é um escurecimento e espessamento da pele. As manchas têm cor marrom a preta e textura aveludada. No início, podem parecer ressecadas ou com aspecto de sujeira, por isso a confusão é tão comum.
Segundo uma revisão sobre acantose na população pediátrica, as regiões mais afetadas são o pescoço, as axilas e a virilha, ou seja, as áreas de dobra. Em alguns casos, as manchas também aparecem nos cotovelos, nos joelhos ou nos dedos.
É importante saber que a acantose não é contagiosa nem resulta de falta de higiene. Portanto, esfregar a pele com força não resolve e ainda pode irritar a região.
Por que as manchas aparecem
Na maior parte dos casos, a acantose nigricans em crianças está associada a níveis elevados de insulina no sangue. Isso acontece quando o corpo passa a responder menos à insulina, quadro chamado de resistência à insulina. Para compensar, o pâncreas produz mais hormônio. Esse excesso de insulina, por sua vez, estimula o crescimento das células da pele e provoca o escurecimento.
A resistência à insulina, por sua vez, costuma estar ligada ao excesso de peso. Além disso, histórico familiar de diabetes tipo 2 e sedentarismo aumentam o risco. Mais raramente, as manchas podem ter outras causas, como alterações hormonais ou uso de alguns medicamentos, e o médico precisa investigar essas situações.
Acantose nigricans em crianças é um sinal de alerta?
Sim. Embora a mancha em si não seja perigosa, ela funciona como um marcador visível do que está acontecendo por dentro.
Um estudo brasileiro publicado na Revista Paulista de Pediatria avaliou 161 crianças e adolescentes com excesso de peso. Cerca de metade (51,5%) tinha acantose. Nesse grupo, os pesquisadores encontraram mais gordura corporal, pressão arterial mais alta, glicemia e insulina de jejum mais elevadas e menos colesterol HDL, o chamado “colesterol bom”.
Além disso, a revisão citada acima mostra que a acantose aparece em 56% a 92% das crianças e adolescentes com diabetes tipo 2. Por isso, ela pode ser um sinal precoce de risco metabólico, e a criança merece avaliação.
Como avaliar a acantose nigricans em crianças
O diagnóstico da acantose é clínico, ou seja, o médico identifica as manchas no exame físico. A partir daí, o mais importante é avaliar a saúde metabólica da criança.
Para isso, o endocrinologista pediátrico analisa:
- peso, altura e índice de massa corporal, comparados às curvas de crescimento;
- circunferência da cintura e pressão arterial;
- histórico familiar de diabetes, obesidade e colesterol alto;
- hábitos de alimentação, sono e atividade física;
- exames de sangue, como glicemia, insulina e perfil de colesterol, quando indicados.
Com esses dados, o médico avalia se existe resistência à insulina e outros riscos associados.
Tratamento: cuidar do metabolismo, não só da pele
O tratamento da acantose nigricans em crianças tem um foco principal: tratar a causa. Segundo a revisão pediátrica, a medida mais eficaz é a perda de peso, com mudanças na alimentação e mais atividade física.
Na prática, algumas atitudes fazem diferença para toda a família:
- Oferecer comida de verdade: priorize frutas, verduras, legumes, feijão e cereais integrais.
- Reduzir ultraprocessados e bebidas açucaradas: refrigerantes e sucos industrializados pesam muito no metabolismo.
- Estimular o movimento: brincadeiras ativas, esportes e passeios valem tanto quanto a academia.
- Cuidar do sono e limitar as telas: noites bem dormidas ajudam no controle do apetite.
- Envolver toda a casa: mudanças feitas em família são mais fáceis de manter.
Com o controle da insulina e do peso, a pele costuma melhorar aos poucos. No entanto, o escurecimento pode não desaparecer por completo, e isso não significa que o tratamento falhou. Em alguns casos de obesidade, o especialista também avalia outras opções; entenda mais sobre o tratamento da obesidade infantil.
Sem culpa e sem julgamento
Comentários sobre a aparência ou o peso podem machucar a criança. Assim, evite apelidos e cobranças. Explique que a mancha é um sinal do corpo, e não sujeira, e que a família vai cuidar disso junta.
Vale também observar outros sinais de alerta para o peso. Confira os sinais precoces de obesidade em crianças e conheça os sinais de diabetes tipo 1 em crianças, outro tipo de diabetes que também merece atenção.
Conclusão
A acantose nigricans em crianças não é sujeira nem problema apenas da pele. Ela pode indicar resistência à insulina e maior risco de diabetes tipo 2. Por isso, ao notar manchas escuras no pescoço, nas axilas ou nas dobras do seu filho, procure o pediatra ou o endocrinologista pediátrico. Com avaliação e mudanças de hábitos em família, é possível cuidar da saúde metabólica desde cedo.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta, o diagnóstico, os exames ou o acompanhamento individualizado com um profissional de saúde.
Dra. Paula Martins Balduino Carrijo — Endocrinologista Pediátrica | CRM-DF 19671 | RQE 16680